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O cel. Jaime Rolemberg de Lima (1913-1978) foi um dos principais idealizadores do Lar Fabiano de Cristo e da Capemi. Atuando em múltiplas atividades, também colaborava escrevendo para publicações diversas.

A produção do texto – para boletins, cartas informativas, revistas e jornais – era feita com cuidado e submetida a várias revisões. Escrevendo a mão, com letra miúda, Rolemberg colaborava com a divulgação dos ideais da obra, fazendo esclarecimentos sobre seus objetivos e narrando histórias significativas a respeito do trabalho.

Dentre os seus vários textos do coronel Rolemberg, um se destaca: aquele que relata o primeiro atendimento feito pelo Lar Fabiano de Cristo. É um depoimento do próprio idealizador a respeito daquele início do trabalho assistencial – e sobre “uma criança de um ano e meio, ardendo em febre de sarampo, debaixo da chuva” – e um balanço sobre a primeira década de atividades da instituição. Publicado pela primeira vez na Revista Capemi, edição nº 75, de 1980.

Naquele dia chuvoso, após iniciado expediente do Quartel General de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, o menos provável seria um chefe ter de sair novamente pelas ruas. da cidade, onde os detritos arrastados pelo temporal da noite estavam sendo retirados pelos garis.

Mas o ex-pracinha Toledo Santos entrou tão consternado que não houve alternativa.
"Eu a conheço - disse - perdeu o juízo porque se apaixonou por um co­lega meu, que, após ter-lhe dado o filho, abandonou-a, sumiu. Está sentada em um monte de lixo, na Praça Mauá, com a criança nos braços. Vamos lá, chefe?”

Que fazer com uma criança naquelas circunstâncias?

Mas, como já existia juridicamente LAR FABIANO DE CRISTO, instituição destinada ao amparo de crianças necessitadas, dois membros da Diretoria rumaram para o local.
Coube à Secretária cuidar da mãe e ao Vice-Presidente, da criança.

Você já imaginou um ex-combatente com uma criança de ano e meio, ardendo de febre de sarampo debaixo da chuva? Isso mesmo aconteceu.

Tentaram-se soluções, todas inadequadas. O LAR FABIANO DE CRISTO existia, mas os que o compunham, diante da primeira criança, sentiam-se receosos das responsabilidades.

Descoberta, porém, pessoa abnegada, rapidamente a primeira casa abrigou esta e mais cinco criancinhas, dando início ao notável crescimento do LAR FABIANO DE CRISTO, hoje com 61 Unidades Assistenciais (*), onde são amparadas, em excelentes condições técnicas, 9.345 crianças, além de 2.836 adultos, seus pais ou responsáveis, cai dos em situação de extrema miséria.

Esta experiência foi traduzida em um principio geral, logo seguido religiosamente: NÃO ADIANTA CONSTRUIR OBRAS SEM QUE ANTES SE DESCUBRAM AS DEDICAÇOES PARA SERVI-LAS, ou, em outros termos, primeiro as dedicações, depois as máquinas para o serviço”.

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O impacto emocional desse primeiro acontecimento mobilizou vontades e, em breve, os recursos financeiros, captados pessoalmente dentre pessoas de boa vontade, eram insuficientes, produzindo-se a idéia, depois vitoriosa, de que melhor seria vender serviçosà comunidade, transferindo-se os resultados á obra assistencial para seu custeio. Foi então possível contar com experiência administrativa de militares e bancários, alguns já aposentados, os quais, trabalhando de graça, produziram a Caixa de Pecúlio dos Militares - Beneficente, que, oferecendo seguros de vida em bases de cooperativismo ganhou a confiança pública e passou a manter a obra de amparo às crianças do LAR FABIANO DE CRISTO.

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Muita gente imagina que o LAR FABIANO DE CRISTO é um casarão cheio de crianças e as mentaliza reunidas em grandes alojamentos. Puro engano! Exatamente ao contrário.
Por volta de 1955, andou pelo Brasil inteiro uma verdadeira missionária americana, trabalhando para o Ponto IV - precursor da Aliança para o Progresso: Irmã Agnita Miriam. De suas numerosas conferências proferidas de Norte a Sul do pais resultou uma publicação - "O BEM ESTAR DA CRIANÇA", cuja mensagem é a suprema condenação do "tratamento em massa" e a defesa da “personalidade única da criança".

Esse livrinho milagroso foi uma espécie de Bíblia para o LAR FABIANO DE CRISTO, que, após estudá-lo, passou a atender as suas crianças conforme as necessidades típicas que apresentam, resultando dai sua estrutura - o sistema de faixas assistenciais.

Para a Irmã Agnita o tratamento em massa é pior do que o abandono e o ideal é a estrutura natural da família. Tomando por base a existência ou não de pais e a natureza do relacionamento dos pais com os filhos, o sistema prevê para a 1ª faixa de necessidades - dar pais às crianças que não os têm, encaminhando as órfãs ou abandonadas a pais adotivos, mesmo custeando toda as despesas.

Quando os pais adotivos, devida­mente selecionados, possuem recursos, o LAR entrega-lhes a criança legalmente, segundo as regras da colo­cação familiar. Quando não possuem recursos materiais para manter e educar os filhos adotados, fornecer-lhes os meios materiais, fiscalizando e apoiando-lhes o trabalho. Neste caso, as crianças não sabem que seus pais são ajudados materialmente, senão quando a idade e o discernimento permitirem compreensão do fato, sem prejuízo das relações pais-filhos.

Elas moram com seus pais em residências comuns não identificáveis como de natureza assistencial.
Pertencem à 2ª faixa de necessidades assistenciais as crianças cujos pais não podem, temporariamente, cuidar delas, por causa de doenças de tratamento demorado ou fortemente contagiosas, desajustamento familiar ou motivos outros, transitórios. Estas são abrigadas em casas de 20 a 30 crianças, com visitas freqüentes dos pais, esforço organizado para a recuperação destes e retorno dos filhos à sua companhia.

Todos conhecem os dois perigos da adoção: se a criança tiver pais natu­rais que possam um dia reivindicá-la, os pais adotivos, intensamente apega­dos, sofrerão durante o afastamento; se, ao contrário, não se apegaram afetivamente, fracassarão no dever de oferecer segurança e equilíbrio emocional. Dai a grande solução intermediária adotada: as colméias.

Colméias são uma tradução brasileira das Aldeias Infantis do movimento internacional desse nome. Constituem-se de 4 a 12 casas-lares situadas em torno de uma administração centralizada. Cada casa-lar tem um casal ou uma senhora que faz as vezes de tios e oferece vida quase igual à de um lar comum, com refeições, brinque­dos, estudos e dormida, participando da vida comunitária (na colméia), através de atividades artísticas, religiosas e de aprendizagem industrial. O relacionamento com os “tios” nas casas-lares assemelha-se à vida familiar comum, mas a existência de uma administração central atenua os efeitos da saída das crianças cujos pais lhes desejam a volta.

É obrigatória, na Colméia, a prática de ajuda às famílias necessitadas, ou seja, serviço de 3ª faixa assistencial, como educação para retribuir ao próximo o que hoje recebem.
É esse serviço de 3ª faixa assistencial a melhor descoberta do LAR FABIANO DE CRISTO: fabulosa experiência que se tem expandido, graças ao reforço de meios que o programa americano Alimentos para o Desenvolvimento (sucessor de Alimentos par a Paz) fornecem.
Considerando a família natural como sagrada, a miséria, a doença e a ignorância dos pais foram sempre tidos como empecilho à valorização das crianças de favelas e aglomerações humanas tipo "guetos". Ambiente social difícil, os recursos materiais canalizados resultam inúteis pela ausência de cooperação dos próprios interessa­dos.

Financeiramente incapaz de enfrentar o problema em toda a sua extensão quantitativa, o LAR FABIANO DE CRISTO passou a atender os casos de maior miserabilidade onde se pudesse vislumbrar qualquer esperança de auto-recuperação.
Aplica o programa de auto-ajuda, ministrando aprendizagem aos adultos; montou e opera escolas maternais, jardim de infância e pré-primários, além de cursos de admissão aos ginásios e escolas profissionais, sempre acompanhados de aprendizagem industrial. Organizou uma Cooperativa Mista de Trabalho e Ensino, onde a mão-de-obra, que não se dirigia ao mercado de trabalho comum, é aproveitada.

Com isso, calça, veste e fornece material escolar a todas as crianças que freqüentam escola (5.396 em fins de 1969). E o faz com boa parte de mão-de-obra das próprias crianças, são suficientes para o desligamento que produzem calçados, uniformes escolares, enxovais de bebês, colchões, além de peças para simples aprendizagem.

Ganhar a confiança dos pais, fazendo-os seguir as instruções e, ao mesmo tempo, agir buscando a auto-suficiência é problema capital. Todavia, após os primeiros 6 meses, o pessoal especializado produz um relacionamento capaz de fiscalizar, sem ofender o orgulho natural da família, as aplicações da ajuda e estimular a evolução do tratamento assistencial em sentido positivo.
O valor intrínseco da pessoa humana, sumamente variável, dificulta uma síntese se resultados, mas a duração média da recuperação de uma família situa-se entre 5 a 6 anos, sendo mais longo no interior  do país, onde faltam empregos.

Tais famílias são inscritas quando o grande necessidade é tão grande que a renda total seja, no máximo, um salário-mínimo e os filhos sejam, no mínimo 4, o que corresponde a seis pessoas. Assim mesmo, a média dos inscritos atualmente é de 9 pessoas por família, considerando-se indício de recuperação a renda global ultrapassar o valor de 2 salários mínimos.
No caso de pessoas moralmente valorosas, com filhos que já possam ajudar (após os 14 anos de idade), 2 e 3 anos são suficientes para o desligamento por recuperação sócio-econômica. A galeria de casos pesquisados e tratados pelo LAR FABIANO DE CRISTO ostenta grandes exemplos de alta expressão humana encontrados em pessoas que caíram até a mais baixa situação de necessidade material. São 1.400 famílias lutando para quebrar uma corrente de pobreza hereditária e, dentre elas, muitas se revelaram capazes de sair daquela situação com 2 anos de ajuda racional.

De 1960 até o fim de 1969, o LAR FABIANO DE CRISTO pesquisou 4.8045 casos, do que resultou inscrever 2.208, oferecendo apoio de relação e encaminhamento aos demais. Desses inscritos, 152 são crianças órfãs ou abandonadas; 247, filhos de pais que não podem cuidar; 601 vivem com seus pais ou responsáveis; 17 receberam ajuda uma só vez; 59 são velhinhos desamparados e 165 residem nas 5 colméias existentes. São 339 famílias julgadas necessitadas que esperam vagas para inscrição.

Como resultado desse trabalho, 267 famílias já foram recuperadas sócio-economicamente, o que corresponde a 2.403 pessoas restituídas à sociedade em condições de auto-suficiência, podendo criar e educar seus filhos.
Somente 67 famílias foram consideradas irrecuperáveis, por não haverem reagido, nos primeiros 6 meses, ao tratamento recebido e por haver necessidade de suas vagas para outras.

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Depois de recrutar um corpo de funcionários dedicadíssimos, seleciona­dos através de testes e estágios e treinados em cursos especialmente adaptados às tarefas, o LAR FABIANO DE CRISTO, que até julho de 1969 atendeu a todos os casos que vieram às suas portas, sente que seus recursos materiais tendem a ser consumi­dos na manutenção e melhoramento dos serviços que já presta e deseja passar a sua experiência a outros que lhe sigam. a trilha. Dessa forma, a dinâmica do crescimento poderá ser mantida, e em uma década os efeitos se refletirão em todo o país, onde a pobreza ainda constitui problema relevante.

Na verdade, aquele primeiro menino que há 10 anos atrás ardia em febre sob a chuva, provocou a formação de uma obra extensa e magnífica, que testou, no Brasil, as teses naturalmente atualizadas da Irmã Agnita Miriam, com resultados positivos.

 

 
Jaime Rolemberg de Lima